Obs.: As opiniões e considerações postadas neste blog NÃO refletem necessariamente a visão da ONG-ATEAC, sendo de exclusiva responsabilidade de seu autor.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Independência

          Hoje a Batata foi trabalhar sozinha, em outras palavras, foi ao hospital com a Fabiana e a Ylenise que são integrantes da ATEAC.
          Foi com uma carinha meio preocupada (afinal me deixou para trás), mas feliz por sair para passear de carro.
          Uma vez li um artigo contra a Terapia Assistida por Animais dizendo que esta explora os animais e os coloca frente a um stress desnecessário. Sou radicalmente contra essa afirmação.
          Sempre considerei meus cães como filhos (filhos adotivos de espécie diferente, afinal pai é quem cria e educa). Quando coloquei meu filho na escola nunca perguntei se ele gostava de ir estudar ou não, quando o matriculei na natação idem, quando o deixava no inglês, nem eu nem ele apreciávamos a situação. Sendo assim, colocar a Batata para trabalhar não me parece uma forma de exploração... é uma questão de cidadania. Batata é quase um ser independente, recebe dois sacos de ração pelo seu trabalho no Hospital e na Comunidade Terapêutica.
          Quando ela foi trabalhar hoje, sozinha, um sentimento parecido com o primeiro dia de escola do meu filho soprou na minha alma. O olhar meio de esgueio, o corpo indo, mas o coração aflito querendo ficar... e, na volta a alegria do retorno ao lar.
           Independência... é isso que queremos para nossos filhos e, se temos a oportunidade de proporcionar isso para nossos animais de estimação é um ato de amor e não exploração. Transformar nossos animais em cidadãos com direitos e deveres elevando-os à condição de indivíduos e não nos colocar na postura de muitos "defensores da natureza" que descem ao nível instintivo dos animais selvagens provocando "terrorismo" contra quem é cruel à outras formas de vida.
            Posso estar cometendo um exagero de antropomorfismo em relação aos cães, mas segundo algumas vertentes religiosas, os animais também estão em evolução espiritual. Assim como os anjos estão num patamar evolutivo maior em relação ao ser humano, o homem é mais evoluído espiritualmente que os animais. Pensando assim... não custa dar uma mãozinha para eles com aprendizado (adestramento) e trabalho (Terapia Assistida por Animais).
            De qualquer forma, gostaria de ter um trabalho como a da Batata (essa é a Batata prá valer na foto):

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Tecnologia

     - Oi, Tudo bem? Gosta de cães?
     Normalmente essa é a primeira frase que a gente diz para a criança que está no leito do hospital. A psicóloga da ATEAC faz uma entrevista prévia, mas finjo sempre que tudo acontece sem planejamento.
     Gabriela (*), uma menina de oito anos, está sentada fazendo inalação. Quieta e tímida ela aceita a companhia da Batata. Como Gabriela está muito retraída e apenas passa a mão na parte de trás do corpo da cadelinha, esta apenas se deita no colo dela e aproveita para tirar uma soneca.
      Tento conversar com ela sobre cães, mas ela não tem cachorro. Passamos para o próximo passo: escola. Acertamos um assunto que ela gosta de falar... começou e não parou mais, a timidez quebrou como um vaso de porcelana atirado no chão. Disse que as amigas estão preocupadas, não tem namorado porque os meninos da classe são muito feios, a professora é muito legal, mas não é bonita, gosta de estudar, mas detesta lição de casa...
       De repente percebo o celular carregando ao lado do travesseiro e digo: "Que tal se tirássemos uma foto sua e da Batata daqui do Hospital e mandássemos para as suas amigas e professora?"
       - Que máximo! Vai fazer sucesso!! - ela respondeu.
       Tiramos algumas fotos com a Batata no colo.
       - ÉÉ... não dá para perceber que estamos no Hospital, vai parecer apenas que você está na sua cama com seu cachorro e de pijamas. - disse eu.
       - Hahaha...! É mesmo... parece que estou apenas matando aula. Mas vou mandar assim mesmo!! hahaha...
       A tecnologia neste ponto é muito positiva. Mesmo distante dos amigos mantemos contato e dividimos alegrias simples... como a foto de um cachorro, do nosso lado, numa cama de hospital.



segunda-feira, 7 de maio de 2012

Analgésico

       As tragédias, às vezes, tem o seu lado engraçado... no quarto 04, onde ficam as crianças mais velhas (quase adolescentes), estavam dois garotos com a mesma lesão: Fratura completa da tíbia (osso da perna) do membro direito. Como os dois estavam deitados em leitos vizinhos, eram muito parecidos fisicamente e estavam imobilizados do mesmo jeito dava a impressão de estarmos com um espelho ao lado da cama.
       - Vocês dois são irmãos? - essa pergunta era feita todas as vezes que entrava uma pessoa pela primeira vez no quarto... Gozado que enquanto estava lá umas cinco pessoas comprovaram essa afirmação.
       O primeiro garoto aceitou bem a Batata. Era menos tímido e, por ele pude saber que os garotos foram atropelados enquanto andavam de Mobilete (um misto de bicicleta e moto) por isso a lesão ser parecida.
       O segundo garoto, já mais tímido, foi virando a cara quando me aproximei com a cachorra.
       - Não gosta de cachorro? - perguntei.
       - Mais ou menos... - ele respondeu com uma cara de pouco caso.
       - Bom, vou colocar a Batata aqui do seu lado... vai passando a mão nela... dizem que isso faz a gente liberar endorfinas que aliviam um pouco a dor. - disse para o garoto que aceitou sem muito entusiasmo.
       Enquanto isso conversamos sobre outras coisas e fui percebendo que os afagos foram ficando mais calorosos enquanto Batata se aconchegava e deitava sua cabeça no colo do paciente.
       Terminada a visita perguntei se a dor diminuiu e ele respondeu que sim "- Ajudou a melhorar." com um sorriso nos lábios.
        É... a cachorrinha é mágica mesmo!!




sexta-feira, 27 de abril de 2012

Batata e a voz de trovão

       Mais uma vez Batata se encontrou com os internos da Comunidade Terapêutica de Dependentes Químicos. Como de costume, a atividade era de adestramento e Batata ficou a postos para receber as guloseimas que servem como reforço positivo.
       Um senhor de certa idade ficou incumbido de adestrar a cão-terapêuta... Recebeu os petiscos, o clicker e partiu em direção de sua tarefa.
       Provavelmente, sentindo o cheiro dos petiscos, Batata se sentou e se aproximou desse senhor que foi  logo afagando a cabeça e o corpo dela (o que já era meio caminho andado para conseguir qualquer coisa dessa cachorrinha).
       O método do clicker é um pouco lúdico... deixa-se o animal à vontade e quando ele se aproxima daquilo que você quer, simplesmente aperta-se o clicker, oferece-se o petisco e clica-se conforme o movimento vai progredindo.
       Tudo ia bem até que o senhor falou com a Batata:  - "Senta Batata!".
        A voz do homem parecia um trovão de tão grave e rouca que era, e como esse senhor era um pouco lerdo para clicar na hora certa, ele tentou o método mais tradicional: dar voz de comando e induzir o movimento.
        O problema é que na hora que aquele "vozerão" disse "Batata", Batata olhou para mim assustada como se perguntasse: - "Por Deus! O que eu fiz de errado dessa vez???"... enfiou o toco de rabinho entre as pernas e se curvou com os olhos abaixados para o Barítono.
        Quanto mais ele chamava pela cadela, mais ela se afastava... nem o petisco parecia agradar mais. A solução foi dizer para o senhor não abrir mais a boca e tentar adestrar a Batata só no clicker. Infelizmente a Batata grudou no meu pé e não quis mais sair até passar o susto.
         Outra coisa é que o dono faz coro com o lutador Anderson Silva e o apresentador Danilo Gentili e só engrossa a voz para dar bronca mesmo.


terça-feira, 24 de abril de 2012

Amor de cão

       Cachorro são especiais quando pensamos em sentimento e precisamos aprender muito com eles. Não digo que devemos ser como um "cachorrinho" para a pessoa amada, mas tolerância, compreensão e respeito são coisas que os caninos estão a alguns anos luz à nossa frente.
       Cães não conseguem dizer "eu te amo", mas expressam isso muito melhor que um papagaio e é isso que quero dizer. Palavras importam pouco e atitudes no cotidiano falam mais alto. Frases ditas pela nossa boca já cairam na banalidade tantas foram as mentiras que sairam dela.
       Companheirismo... isso também é algo precioso. Muitas vezes estamos com problemas que não estamos a fim de desabafar, mas a simples companhia ao lado já conforta, o convite para dar uma volta a pé ou de carro seja bem-vinda, mesmo sendo silenciosa e melancólica.
        Respeito... bom, cães são regidos por hierarquias sociais e muitas vezes nos obedecem por estarmos num patamar superior, mas de qualquer forma eles gostam de nós pelo que fazemos por eles e dão pouca importância com o que fazemos fora de casa, isso não quer de dizer que não tenham curiosidade de saber, pois se você brincar com outro cão o focinho funcionará melhor que um aspirador de pó, porém colocam na nossa responsabilidade qualquer ação imprópria que se faça longe dos olhos.
        Discussões não duram mais que alguns segundos, afinal o cão não retruca, simplesmente se afasta para depois se aproximar quando tudo tiver mais calmo com um sorriso nos lábios.
        Cada um vive sua vida e quando precisar estaremos a postos para construirmos algo juntos. Isso parece ponto comum com todos os cães, só não devemos esquecer da alimentação, higiene e saúde.
        Temos nossas responsabilidades... mas devemos nos relacionar como crianças e isso já foi dito há muito tempo como sendo o reino dos céus.
         Por fim, qualquer ato de violência ou de raiva somente deve ser liberado quando houver risco de integridade física própria ou das pessoas queridas. Aí sim, as palavras faltam aos cães... se bem que a educação vem de família... Não é, Batata?

     

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Pais e Filhos

    "Homem é tudo igual!" essas frases feitas que infestam a internet, principalmente em redes sociais, infelizmente  nunca vão traduzir a essência do ser humano. Afinal somos todos diferentes e essa diferença que faz com que cada ser seja especial.
    Essa diferença foi notada nitidamente num atendimento. Normalmente, são as mães que cuidam dos filhos nos hospitais, neste dia em particular, eram dois pais que zelavam pelos filhos em seus leitos.
    As mães sempre reagem da mesma forma: são alegres e demonstram a satisfação da visita  pedindo para os filhos interagirem com os cães. Com os pais (homens) houve nítida diferença...
    O pai de Nathalie (*), uma menina delicada que sofreu uma cirurgia na região do crânio, recebeu-nos com piadas: "...a Batata é frita ou é assada?... a Tequila (outra cão-terapêuta) não veio? Puxa e eu pensei que que iria tomar uns "drinks"?..." Usava o humor para combater o tédio, frustração e como fuga para o sofrimento da filha.
    Já o pai de Marcelo (*), garoto que sofreu uma cirurgia de apendicite, não disse uma palavra, ficou fazendo palavras cruzadas e mal dirigiu o olhar para nós. Apenas se moveu para reclamar com a enfermeira sobre informações desencontradas sobre o horário da administração do remédio.
    Claro que ambos se preocupavam pela saúde e bem-estar de seus filhos, senão não estariam ali em pleno horário de trabalho, mas homens são difíceis mesmo na hora de demonstrar sentimento e afetividade. No entanto, devo dizer que o pai da menina conseguia transmitir mais calor humano e, certamente é uma companhia mais saudável para se manter ao lado numa situação dessas.
    Filhas fazem pais mais amorosos? Também pode ser uma questão... sou pai de um menino e sei que sou mais duro com ele do que com seus amigos.
    Só sei que a Batata percebeu quem mais precisava de assistência e se aconchegou mais pertinho do garoto.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Coisinha à toa

     Como lidar com um filho nosso completamente imóvel e sem responder a nenhum estímulo? Me deparei com um caso assim no hospital ontem. A criança sofreu uma lesão cerebral, não sei dizer a causa e somos instruídos a não perguntar para os parentes sobre o que aconteceu, mas era certo que parecia apenas estar dormindo constantemente.
      Logo que chegamos no quarto, essa mesma mãe, se encantou com o trabalho e olhou cada atendimento da Batata com os outros pacientes (uma menina que sofreu fratura e cirurgia no pé direito e outra que sofreu cirurgia craniana e se recuperava bem). Ao chegar no leito de sua filha ela prontamente ajeitou um lugarzinho para colocar a Batata. Enquanto eu agradava a Batata para ela se sentir tranquila a mãe também começou a afagar o corpo da cão-terapêuta. Batata se sentiu tranquila com isso e se deitou ao lado da menina, coloquei então, a mão da menina no pescoço da Batata que aceitou calmamente. Vendo isso os olhos da mãe marejaram e ela falava para a filha sobre os cães que estavam em casa e estavam à espera dela.
       Realmente, o que a Batata fez, não merece nenhum prêmio de inteligência ou heroísmo, simplesmente se deitou do lado da paciente e se deixou afagar, coisa à toa, mas a emoção com que essa mãe agradeceu e se despediu não deixam dúvidas que a Batata trouxe algo mais do que os pêlos do corpo... talvez, um pouco mais de esperança...

Dependentes Químicos

    Ontem Batata teve jornada dupla de trabalho: Hospital e Clínica de Dependentes Químicos. Primeira vez que ela teve contato com os chamados adictos.
     Tímida na chegada Batata ficou receosa com os internos, mas ao ser afagada se entregou por completo se deixando pegar no colo e atendendo quando chamada.
     O atendimento na Comunidade Terapêutica se faz da seguinte forma: os cães e voluntários são distribuídos aos internos e o trio trabalha com adestramento do cão. São usados clickers (aparelho que ao ser apertado emite um som semelhante ao de amassar levemente uma lata) que são o método de adestramento mais rápido atualmente. O adestramento do cão ensina o dependente químico a dar limites ao animal, em consequência, este adquiri mais instrumentos para lidar com sua própria dificuldade em limitar a sua impulsividade.
     Infelizmente... Batata não foi um primor como aluna dando trabalho para aprender até comandos básicos, mas como era a menorzinha dos cães cativou a todos pela simpatia.
     As pessoas internadas na comunidade, num certo período de sua vida, destruiram vidas e geraram infelicidade por onde ficaram. Me alegra ver que a Batata ajuda uma delas a construir algo e produzir sorrisos.

sábado, 10 de março de 2012

Pintaram minha cachorra de rosa!!

       A Batata fica comigo na minha clínica veterinária e como toda clínica veterinária tem um Banho e Tosa. Bem... quando chegava o carnaval, pintávamos a Batata e a Safiri de verde e rosa para divulgarmos o serviço. Ficavam parecendo algodão doce correndo pelo chão... era engraçado.
       Fazia já algum tempo que não fazíamos isso quando, de repente, vejo a Batata completamente rosa-choque. Não sabiam que não podiam pintar os pêlos para ir ao hospital e acharam que as crianças iriam adorar.
       Batata tomou banhos diários, mas a tinta não saia... Solução?!... tivemos que tosar o pêlo dela inteirinho com a lâmina mais baixa.
       Que tristeza... de ursinho branco ficou parecendo um veadinho manchado de rosa. Batata, aparentemente, nem ligou de ter ficado com metade do tamanho. A única coisa que deve ter mudado na vida dela é que o vento agora podia ser sentido por todos os lados do seu corpo depilado e os pêlos já não entram mais nos olhos como antigamente. Com o calor que faz nessa época deve ter sido uma benção.
       Ao chegar no hospital ninguém reconheceu a Batata, acharam que eu tinha trocado de cachorra.
       - Meu Deus, o que você fez com a Batata?? - era o que mais se ouvia. - Trazia ela colorida mesmo a gente dava um jeito... olha a cara de envergonhada que ela está fazendo, ela está pelada! (e a bandida fazia ainda mais cara de coitada para piorar a situação).
       Bom... só sei que depois dessa, nunca mais faço tosa na Batata. Passei a máquina na pelagem da cadela e o podado acabou sendo eu.
       Não vou tirar foto da Batata pelada, a "coitada" está envergonhada...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Reconhecimento

       É sempre bom ouvir um elogio pelo trabalho que você faz.
       "... - Que trabalho extraordinário que vocês fazem... - Que coisa linda visitar as crianças doentes com os cães..." - isso já virou rotina nas nossas visitas ao hospital
       Palavras de incentivo são importantes, mas acredito que o que nos move não são as palavras ditas, essas se perdem no meio de tantas, e se dermos muita importância perdemos o rumo na direção do progresso.
       A energia que nos recarrega vem dos pequenos gestos: num sorriso brotando na face marcada pela dor, no esforço em movimentar membros atrofiados pela paralisia, na alegria de um passeio com o cão pelo corredor passando pelo meio das macas como se fosse um bosque cheio de árvores.
       Creio que com a Batata acontece a mesma coisa... o trabalho é duro para ela que talvez não entenda o sentido de tudo isso, mas, depois das visitas, quando a coloco no chão de novo... Pode parecer idiotice, mas acho que ela percebe a minha satisfação e o meu orgulho por ela.
        Às vezes tenho que deixar o carro num estacionamento distante e temos que caminhar um bom pedaço. Quando caminho normalmente com ela a caminhada se faz casual: eu andando e a Batata ao lado me acompanhando. Ao final do trabalho essa caminhada é diferente: ela me instiga para brincar, corre e depois me espera aguardando um carinho para depois correr de novo, como se dissesse: "- Se eu te deixei feliz, eu estou feliz também".
        Poderia pesquisar esse comportamento e explicá-lo de maneira científica, no entanto nunca faria isso, prefiro acreditar que a Batata faz tudo isso por mim e essa magia não vou deixar apagar. Afinal, esse mundo precisa de fantasias e sonhos e, dessa vez, vou deixar o ceticismo de lado e elevar a Batata a um nível mais alto do que o simples instinto animal.
        Essa é a minha cachorra terapêuta!


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Mensagens

         Barbie (*) é uma interna do semi-intensivo, seus movimentos são precários, sua mente apresenta deficiência e suas condições básicas são monitoradas por aparelhos. Tudo isso dificulta muito a comunicação. A terapia consiste em estimular a criança com movimentos simples: passamos sua mão no pêlo do cão para que depois ela o faça por si mesma. Isso é desgastante para ambos, então, a atividade é por pouco tempo para que não haja rotina, nem sofrimento. Na maior parte do tempo nós conversamos, infelizmente, no caso da Barbie a conversa é um monólogo, onde somente o atendente fala. Mesmo que o paciente quisesse esboçar algumas palavras o tubo de traqueostomia permanente impediria.
          Depois de algum tempo falando sozinho ou, nesse caso, usando a Batata como um marionete e simulando o cão falante você percebe que o paciente usa outros meios para se comunicar. Barbie não usa palavras, não pode usar o corpo, suas mãos são rígidas e, não consegue emitir sons inteligíveis, sua mente às vezes divaga em pensamentos que não conseguimos atingir, mas... o olhar... Ah, o olhar... a linguagem mais simples, porém a que mais expressa. Esse é o melhor meio de captar mensagens que vêm direto do coração e, esse eu sei que bate forte dentro do peito da menina.
           Espero um dia ser fluente nessa linguagem que traduz como nenhuma outra o que vai no fundo da nossa alma.

Conversas

      Criança é uma criatura mágica mesmo... Hoje estávamos eu, Batata e Gil (*), um interno do hospital, batendo um "papo-furado". Gil era um garoto de 10 anos muito comunicativo e, como gostava de cães, coloquei a Batata do lado dele na cama e deixei-o brincar com ela. Enquanto conversávamos sobre os mais diversos assuntos (escola, amigos, família... e claro, cães) ele fazia questão de que a Batata participasse. Entre um comentário e outro ele desviava o olhar de mim e dizia perto do ouvido da cão-terapêuta: "...É ou não é, Batata?...". A atitude era tão natural que parecia que a Batata estava participando mesmo da conversa, dando a sua opinião canina sobre as idéias do menino.
       Às vezes me pego falando com meus cães, mas é diferente... acho que perdi a magia da infância onde animais, plantas e até objetos... todos... tinham consciência e nos faziam menos solitários, ouvindo com paciência os nossos lamentos e, às vezes, nos consolando com o olhar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Filmagem

     Entre um atendimento e outro sempre acontecem coisas marcantes.
     Uma delas foi a reportagem que fizeram com os cães terapêutas na pediatria do hospital. Confesso que prefiro me comunicar escrevendo do que falando, ainda mais de improviso.
      A reportagem é interessante para vocês se informarem melhor sobre a Terapia com Cães e também ver a Batata em ação. Bom... não exatamente em ação, mas no ambiente de trabalho. Qualquer informação para contato veja o site: http://www.ateac.org.br/

video

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Primeiro dia de trabalho

        Emoções à flor da pele, de minha parte e uma tensão moderada da Batata. O Hospital Mario Gatti em Campinas é um hospital municipal (o mais antigo e movimentado da cidade) muitos pacientes aguardando atendimento.Nos encontramos numa sala de espera num prédio anexo, neste dia conhecemos alguns cães terapêutas veteranos:  Sol - uma labradora, Pitty: um Yorkshire terrier, Mel: outra poodle e Jasmim: uma Maltês. Passamos pela guarita, onde o segurança muito solicito brincou com os cães e nos cumprimentou, próxima etapa: o elevador (a pediatria do hospital fica no quarto andar), a tensão aumentou por parte da Batata, nunca ela havia entrado num elevador, via-se que seus músculos estavam tensos.
        Antes de começar o atendimento fazemos uma higienização das patas, focinho e genitais dos animais com solução antisséptica (antes disso os cães tomam banho com shampoo à base de Clorexidine), Batata não entendia nada, seu olhar parecia ter dois pontos de interrogação em cada pupila.
        Primeira sala: ala do semi-intensivo. Nesta sala ficam crianças que nasceram no hospital, mas dependem de aparelhos para viver, tubos e aparelhos como oxímetro ficam constantemente ligados. Se tivesse que comparar diria que essas crianças pareciam torre de uma CPU que necessitam de cabos de energia, fios de conexões com a impressora e monitor e cabo de internet para poderem funcionar... tamanha a quantidade de fios e tubos conectados ao seu corpo. Batata, ainda tensa, chamou a atenção do primeiro paciente logo de cara (estava peluda naquela época e parecia um tufo de algodão doce). A criança se esforçou bastante para pegar nos pêlos dela e, para sua infelicidade (da Batata), arrancá-los em pequena quantidade.
         Segunda sala: estava cheia, mas eram apenas bebês de colo. Nesse caso, os cães terapêutas têm pouco a fazer, os bebês interagem pouco com os cães. São as mães que se empolgam mais e querem ver os animais.
         Terceira sala: estava vazia neste dia em particular.
         Quarta sala: várias crianças aguardavam ansiosamente pelos cães. Batata ganhou carinhos de todas elas e relaxou um pouco mais. Estranho que mesmo ganhando os afagos, Batata não subia nas crianças para lambe-las no rosto como sempre faz nos outros lugares. Parece que tinha percebido que neste lugar os exageros de alegria deveriam ser contidos.
          Fim de um dia de trabalho... Batata voltou para casa e dormiu como uma pedra, nem ligou para seus irmãos.

Vista do Hospital Municipal "Mario Gatti"